Faveiro-de-Wilson: O tesouro escondido de Minas Gerais, Brasil (Português)

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Descoberta do Faveiro

Em Minas Gerais, estado do sudeste brasileiro conhecido por sua riqueza mineral, há outro tipo de tesouro natural que ainda está escondido: a árvore faveiro-de-wilson (Dimorphandra wilsonii) da família das leguminosas. Sua história certamente começou muito tempo antes, mas ela só foi conhecida pela ciência em 1968, quando um mateiro, Sr. Wilson Nascimento, se deparou com alguns indivíduos da espécie no município de Paraopeba. No ano seguinte, essa árvore foi descrita pelo Dr. Carlos Rizzini, do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que tinha o mateiro como assistente de pesquisa. Por isso, os nomes científico e comum da espécie gentilmente homenageiam o Sr. Wilson, que faleceu logo após a descoberta.

É curioso como uma espécie de arvore de grande porte, existente não tão longe de uma metrópole, foi descoberta tão tardiamente. Isto levou à suposição de que a espécie nunca foi muito abundante na natureza. Quinze anos depois, em 1984, o Dr. Rizzini retornou àquela região e contou apenas 18 indivíduos da espécie, em Paraopeba e no município vizinho, Caetanópolis. Como havia encontrado tão poucos indivíduos, ele considerou que essa espécie poderia estar em risco de extinção.

E depois disto, o faveiro-de-wilson ficou esquecido até 2003, quando foi “redescoberto” pelos pesquisadores do Jardim Botânico da Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica de Belo Horizonte. Eles visitaram os municípios de Paraopeba e Caetanópolis, onde, em meio a extensas pastagens com o capim exótico e invasor, Urochloa decumbens (conhecida pelo nome comum braquiária; que tem como sinônimo Brachiaria), encontraram uma dúzia de velhas e peculiares árvores de faveiro-de-wilson.

Este encontro levou-lhes a várias questões: A espécie será mesmo rara? Ela só ocorre aqui? Está de fato em risco de extinção? Como será sua biologia e ecologia? Para responder a essas questões, os pesquisadores iniciaram ações como a coleta de sementes, reprodução em viveiro e estudos sobre fenologia e genética de populações. Ao perceberem que era uma espécie rara e insuficientemente documentada, encontrar mais indivíduos e proteger essa espécie misteriosa tornaram-se suas prioridades. Comprometidos em encontrar mais árvores de faveiro-de-wilson, os pesquisadores ignoraram todos os comentários que desencorajavam as suas tentativas de proteger uma espécie considerada como uma “causa perdida” e resolveram procurá-la em todo o estado de Minas Gerais. Como este seria um trabalho muito difícil e a equipe era pequena, eles buscaram envolver as comunidades locais. Para isso, criaram e distribuíram um cartaz com o título “Procura-se” e um folheto que continham informações e fotos da espécie e os contatos da equipe.

A caça ao tesouro

A jornada de busca parecia uma caça ao tesouro, mas sem um mapa para orientação. Com os materiais de divulgação em mãos, o grupo de pesquisadores foi à “caça” ao faveiro-de-wilson, afixando cartazes por toda parte e abordando as pessoas no campo. Eles também distribuíram os folhetos, mostraram folhas, frutos e sementes do faveiro e perguntaram às pessoas se conheciam a espécie e poderiam ajudá-los a encontrá-la. Aquelas pessoas que tinham mais familiaridade com a natureza e que também estavam interessadas em colaborar, tornaram-se parceiras especiais e foram reconhecidas como “caçadores de faveiro”.

A ausência de um mecanismo geral para proteger a espécie em seu habitat natural levou à criação de um Decreto estadual em 2004, que declarou a proibição de corte e exploração do faveiro-de-wilson em Minas Gerais. Em 2006, o estado de conservação da espécie foi avaliado e, posteriormente, publicado na Lista Vermelha Global da IUCN na categoria “Criticamente em perigo” de extinção. Alguns anos depois, o faveiro-de-wilson também foi incluído nas Listas Vermelhas Oficiais de Minas Gerais e do Brasil.

Nos anos seguintes, com apoio logístico do Instituto Estadual de Florestas (IEF-MG) e patrocínio de uma empresa de cimento, as buscas pela árvore foram reforçadas e as pesquisas passaram a incluir fisiologia e biologia reprodutiva. Paralelamente, outras atividades também foram iniciadas, incluindo a reintrodução da espécie em habitats adequados e a ampliação da conscientização ambiental por meio de reuniões, bate-papos e apresentações em escolas, praças públicas e outros locais. Assim, um projeto simples transformou-se no Programa de Conservação do Faveiro-de-Wilson, cujo trabalho se concentrou principalmente na região Central de Minas Gerais, na transição ou zona de ecótono entre dois hotspots de biodiversidade: o Cerrado—uma vasta savana tropical—e a Mata Atlântica.

Embora o Programa estivesse focado em uma única espécie—o faveiro-de-wilson (D. wilsonii)—os pesquisadores, durante os seus levantamentos na região, se depararam com outra espécie morfologicamente semelhante. Trata-se do faveiro-da-mata (Dimorphandra exaltata), uma espécie originária da Mata Atlântica e igualmente rara e pouco estudada. Até então, a espécie era conhecida apenas a partir dos registros de coleções científicas, que haviam sido realizados na região Leste de Minas Gerais e em alguns municípios dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Essa foi a primeira vez que o faveiro-da-mata foi encontrado na região Central de Minas Gerais e tal descoberta traria mais desafios e surpresas.

Criando um Plano de Ação para a Conservação

Graças ao envolvimento da comunidade, a caça ao tesouro para o faveiro-de-wilson rendeu bons resultados. Até 2013, tinham sido registrados 219 indivíduos adultos em 16 municípios da região Central de Minas Gerais e foi comprovado que a espécies era endêmica dessa região. Com todos os dados e as informações acumuladas nesses 10 anos de trabalho, surgiu então o impulso de criar um Plano de Ação Nacional (PAN) para a Conservação do Faveiro-de-Wilson – PAN Faveiro-de-Wilson. Isso foi feito em parceria com o Centro Nacional de Conservação da Flora do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (CNCFlora/JBRJ) e envolveu 30 participantes de 10 instituições.

Cinco anos depois, em 2020, a maioria das ações de conservação haviam sido implementadas/executadas pelos colaboradores envolvidos no PAN Faveiro-de-Wilson. Notou-se que o faveiro-de-wilson e o faveiro-da-mata não são utilizados para fins comerciais. No entanto, suas vagens/favas, embora secas, são palatáveis e nutritivas para os animais, incluindo espécies silvestres (ex. anta, paca, veado, cotia e arara), além de bovinos e equinos que também ajudam a dispersar as sementes. Além disso, como as vagens caem no período em que as pastagens estão secas, elas são benéficas para os agricultores cujo gado se alimenta delas. Este fato tem sido usado como uma das justificativas para a conservação destas espécies. No entanto, embora ambas as espécies produzam muitos frutos e sementes, o recrutamento é baixo e o crescimento é lento e desigual. Além disso, as plantas jovens precisam competir com o agressivo capim braquiária, bem como resistir ao pisoteamento do gado e à predação por insetos, o que acarreta muitas perdas, inclusive nas tentativas de reintrodução.

Traçando a origem do Faveiro

Desde o início das pesquisas, buscou-se uma comparação genética entre o faveiro-de-wilson e o faveiro-do-campo (Dimorphandra mollis), uma espécie não ameaçada de extinção e comum no Cerrado, com ampla distribuição no Brasil. Mas depois que o faveiro-da-mata foi descoberto e os pesquisadores notaram que as três espécies coexistiam nessa região, os estudos genéticos realizados pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) passaram a considerar todas elas. Isso levou a uma descoberta surpreendente em 2019: o faveiro-de-wilson é um provável híbrido natural de faveiro-da-mata e faveiro-do-campo! Tal revelação levou os pesquisadores a fazer vários ajustes ao longo do caminho. Como exemplo, a cartilha educativa ilustrada para escolas, fazendeiros, “caçadores de faveiros”, colaboradores e outros parceiros, que estava sendo escrita, foi publicada em 2020 com o título “Preservando os Raros Faveiros”, de modo a incluir também o faveiro-da-mata e o faveiro-do-campo.

Um marco foi alcançado em 2020, com um total de 441 árvores adultas de faveiro-de-wilson georreferenciadas e marcadas em 24 municípios. No entanto, nenhuma dessas árvores foi encontrada dentro de unidades de conservação de proteção integral e a grande maioria delas está localizada em áreas degradadas, o que torna a conservação da espécie mais desafiadora. E quanto ao faveiro-da-mata 451 indivíduos também foram encontrados, georreferenciados e marcados na mesma região. Para ambas as espécies, os pesquisadores observaram que a principal causa para a drástica redução não foi nenhum uso específico da planta, mas simplesmente a destruição do seu habitat. Com base nessas novas informações e na ampliação do conhecimento, o CNCFlora/JBRJ reavaliou o faveiro-de-wilson e alterou a categoria da espécie de “Criticamente em perigo” para “Em perigo” de extinção. O faveiro-da-mata também foi avaliado e incluído na mesma categoria. Ambas as avaliações foram submetidas à IUCN, sendo que a avaliação do faveiro-da-mata já foi publicada na Lista Vermelha Global.

Olhando para o futuro

Recentemente, o CNCFlora/JBRJ uniu forças também com instituições nacionais e internacionais (ex. IUCN SSC CSE-Brasil e CEPF) para elaborar o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Faveiros (Dimorphandra) Ameaçados de Extinção – PAN Faveiros, que tem o faveiro-de-wilson e faveiro-da-mata como espécies-alvo e o faveiro-do-campo como espécie beneficiária. Isso possibilitou redefinir os objetivos e ações prioritárias, bem como ampliar os esforços empreendidos para a conservação e recuperação de suas populações. Essa mudança foi muito importante porque o Cerrado e a Mata Atlântica, onde essas espécies ocorrem, estão sob forte pressão da expansão agrícola e da pecuária. Assim, os esforços de conservação de vários ângulos são necessários para ter sucesso. Além disso, esses esforços para restaurar e proteger os faveiros e seu habitat exigem a colaboração nacional e internacional entre as partes interessadas para impulsionar o investimento de recursos financeiros e os resultados de conservação.

Ao longo desses anos, milhares de pessoas, de diferentes setores (público, privado e não-governamental) e cidades, têm sido envolvidas no Programa de Conservação. Isso inclui alunos de escolas, comunidades locais, “caçadores de faveiros” e aqueles proprietários rurais que com muito orgulho guardam os dois raros faveiros em suas propriedades. Vale mencionar também que em 2015 o Programa de Conservação do Faveiro-de-Wilson recebeu o Prêmio Nacional de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente como a melhor iniciativa brasileira de conservação da natureza na categoria serviço público. Por meio de nossos esforços conjuntos, esperamos continuar expandindo nosso trabalho para proteger essas peculiares árvores de faveiros em uma região que deve ser lembrada não apenas por seus recursos minerais, mas também por seus tesouros verdes.

Leitura adicional

Fernandes, F.M. (coord.), Pereira, A.C.R, Roque, A.C., Fonseca, S.C. 2020. Preservando os raros faveiros. Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica, Belo Horizonte. 36p. ISBN: 978-65-991933-1-6 https://prefeitura.pbh.gov.br/sites/default/files/estrutura-de-governo/fundacao-de-parques-e-zoobotanica/zoo-botanica/preservando-os-raros-faveiros-fpmzb-2020-para-e-book.pdf

Fernandes, F.M., Rego, J.O., 2014. Dimorphandra wilsonii Rizzini (Fabaceae): Distribution, habitat and conservation status. Acta Botanica Brasilica, 28, 434–444. https://doi.org/10.1590/0102-33062014abb3409

Muniz, A.C., Lemos-Filho, J.P., Souza, H.A., Marinho, R.C., Buzatti, R.S., Heuertz, M., Lovato, M.B., 2020. The protected tree Dimorphandra wilsonii (Fabaceae) is a population of inter-specific hybrids: Recommendations for conservation in the Brazilian Cerrado/Atlantic Forest ecotone. Annals of Botany, 126, 191–203. https://doi.org/10.1093/aob/mcaa066

This article is from issue

16.3

2022 Sep