O desafio da migração de peixes em rios barrados da Região Neotropical (Portugese)

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Uma das características mais marcantes dos Neotrópicos é a presença de muitas bacias hidrográficas grandes, algumas das quais abrigam ecossistemas espetaculares, como as dos rios Amazonas, Orinoco e Paraná, cada um drenando a América do Sul em diferentes direções. Particularmente notável é a diversidade de espécies de peixes encontradas nesses sistemas fluviais, que é maior do que as encontradas em outros continentes, com estimativas apenas para a bacia amazônica de mais de 2.500 espécies, das quais quase metade ocorre apenas nesta bacia. Dentre essa diversidade, caracídeos (Characiformes) e bagres (Siluriformes) representam a maior diversidade e abundância de espécies.

Essa infinidade de espécies de peixes inclui algumas que realizam migrações incríveis. Até agora, foram descritas migrações para aproximadamente 70 espécies na América do Sul, número que deverá aumentar à medida que mais pesquisas forem realizadas em uma região com rios longos e de alta sazonalidade. Os ambientes aquáticos da bacia amazônica são muito variáveis não apenas devido à sua grande cobertura (mais de seis milhões de quilômetros quadrados), mas também devido às diferentes chuvas que resultam em inundações sazonais. Assim, algumas espécies de peixes migram rio acima e outras rio abaixo para completar seu ciclo de vida, enquanto outras migram entre planícies inundadas sazonalmente entre os principais canais dos rios. Combinados com uma disposição genética, os principais fatores que modulam a migração são os padrões de chuva, fotoperiodo e temperatura. A migração dos peixes é um fenômeno complexo fortemente associado ao comportamento reprodutivo. Como exemplo, os grandes bagres geralmente desovam na bacia amazônica ocidental, mais perto dos Andes e até 5.000 quilômetros de distância do Oceano Atlântico. Ovos, larvas e os peixes juvenis derivam rio abaixo para as áreas inundadas no curso inferior da bacia, com alguns até se estabelecendo no estuário do rio Amazonas, de onde realizam migrações rio acima quando atingem a idade adulta.  

Algumas dessas espécies migratórias são muito importantes para os povos que habitam a bacia amazônica, pois são fonte de proteina e atividade econômica. Estima-se que cerca de 80 por cento da pesca comercial anual nesta região corresponda a peixes migratórios. Exemplos incluem o pacú (Colossoma macropomum), que migra entre canais de rios e planícies alagadas, e a piramutaba (Brachyplatystoma vaillantii), uma espécie de bagre-golias que migra rio acima e abaixo. Migração esta chamada de ‘Piracema’, pelos indígenas (língua tupi) que significa ‘subida do rio’.

No entanto, o futuro desses peixes migratórios aparentemente abundantes, está longe de ser seguro. As ameaças às populações de peixes na bacia amazônica são inúmeras—como desmatamento, pesca predatória, alteração dos cursos dos rios, assoreamento, poluição e introdução de espécies exóticas, entre outras. No entanto, a principal ameaça aos peixes migratórios é, sem dúvida, a interrupção dos cursos d’água por hidrelétricas, não apenas transformando as águas de fluxo livre em águas paradas, mas também interrompendo as migrações de peixes, como as realizadas pelos bagres-golias. Essas barragens alteram o regime de pulso de inundação dos rios, causar flutuações diárias artificiais do nível da água,  alterando a circulação natural interna do corpo d’água e a temperatura, trazem alterações biogeoquímicas e, com isso, reduzindo ou aumentando a turbidez, alterando a penetração da luz, com efeitos indiretos nas teias alimentares, em alguns casos alterando a produtividade primária é comprometida devido à redução da atividade fotossintética. Como a rede de energia da América do Sul é amplamente alimentada por barragens fluviais, com planos de expansão, a interrupção da migração só vai piorar.

Embora a construção de barragens nos rios brasileiros—que respondem por grande parte da bacia amazônica—tenha sido regulamentada por uma estrutura política que inclui a mitigação das ameaças aos peixes migratórios, permanece a incerteza sobre a real eficácia de tais políticas para a conservação dessas espécies. Por exemplo, o projeto de algumas barragens incluiu as chamadas passagens de peixes, que de fato permitem o movimento dos peixes a montante, mas com pouca evidência de movimento a jusante. Além disso, as taxas de eclosão e sobrevivência dos peixes nascidos a montante dos reservatórios são desconhecidas. Como os movimentos a montante e a jusante precisam ser concluídos em um ciclo, as barragens estão interrompendo o ciclo de vida de algumas espécies migratórias, como os bagres-golias. Uma observação rápida e superficial da eficácia das medidas de mitigação utilizadas no projeto de barragens é muitas vezes ilusória. Por exemplo, após a construção da barragem de Salvajina, peixes adultos sobreviventes forneceram alimentos às comunidades locais por algum tempo em uma seção do rio Cauca na Colômbia; no entanto, as populações de peixes acabaram por se esgotar, pois não houve recrutamento..

Olhando para o futuro, a conservação de peixes migratórios na bacia amazônica está sendo prejudicada não apenas pelas atividades humanas, mas também por uma falta geral de conhecimento. Primeiro, nossa compreensão da diversidade de peixes da bacia amazônica ainda está crescendo, à medida que as espécies continuam a ser descobertas, o que significa que estamos perdendo espécies sem conhece-las. Em segundo lugar, a maioria das espécies já descritas carecem de dados sobre o status e as tendências populacionais, duas informações que são de vital importância para informar as prioridades de conservação e ações específicas. E terceiro, os padrões migratórios de peixes na bacia amazônica continuam a ser descritos, o que significa que ainda existem grandes lacunas em nosso conhecimento que precisam ser preenchidas, antes que possamos realmente entender como as barragens e outras atividades humanas podem afetar sua sobrevivência. Os peixes migradores constituem um grupo muito complexo e frágil devido à heterogeneidade de ambientes associados aos seus ciclos de vida. É importante ressaltar que os peixes migratórios podem ser considerados uma espécie guarda-chuva para a conservação da biodiversidade de água doce e, portanto, têm o potencial de impulsionar políticas internacionais de conservação em toda a bacia amazônica e outras grandes bacias hidrográficas nos neotrópicos e além.

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15.4

2021 Dec